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Homenagem à Itália na Bienal Internacional do Livro

Valerio Manfredi, autor da trilogia “Alexandros”

Rachel Bertol

   Depois de Portugal e Espanha, homenageados nas duas últimas bienais do Rio, agora é a vez da Itália, outro país mediterrâneo que está trazendo à XI Bienal Internacional do Livro nove autores. Além de reencontrarem homens de letras que já estiveram no Brasil, como Domenico de Masi, o sociólogo do ócio criativo, e Valerio Manfredi, autor da trilogia “Alexandros” (sobre Alexandre, o Grande), os brasileiros poderão conhecer autores como o poeta Corrado Calabrò, ainda sem editora por aqui, e o premiado Maurizio Maggiani, que lançará “A rainha sem enfeites”, seu primeiro livro no Brasil, pela editora Berlendis & Vertecchia.

   A literatura italiana, porém, não é estranha ao mercado editorial brasileiro. Tanto que a Berlendis & Vertecchia, que edita a coleção Letras Italianas, criada em 2001 para lançar obras de autores representativos da Itália no século XX (pela qual sairá o livro de Maggiani), receberá na próxima segunda-feira, dia 12, o Prêmio Nacional de Tradução, na sede do governo italiano, em Roma. O editor Bruno Berlendis irá à Itália para a solenidade.

   E, a fim de reforçar sua participação na Bienal, a Berlendis lança dois outros títulos italianos no evento: “A lua e as fogueiras”, o último romance de Cesare Pavese, de 1950, considerado por muitos o seu mais belo livro, e “Contos romanos”, de Alberto Moravia. No livro, há quatro mapas de Roma para ilustrar a leitura das histórias. Moravia, grande autor italiano, também é um dos destaques da editora Bertrand Brasil, com o lançamento de “Contos dispersos (1928-1951)”, que reúne histórias em torno da guerra, sobre tipos do dia-a-dia e sobre a bela Roma, cidade do regozijo e do amor.

   Outra editora que se destaca pela publicação no Brasil de autores italianos é a Rocco. Três dos italianos que participam da Bienal integram o catálogo da editora. Valerio Manfredi, que já esteve no Brasil, irá lançar pela editora outro romance histórico, “A última legião”, que leva os leitores à Roma do ano de 476, no tempo do imperador Rômulo Augusto. O renomado psicólogo Willy Pasini lançará pela Rocco “Os tempos do coração — Lentidão e pressa na vida e no amor”, um histórico sobre a escravização do homem pelo tempo, e a escritora Paola Calvetti virá para divulgar “O adeus — Romance em dois atos e um epílogo”, em que conta a história de Cecília, Olga e Virgínia, amigas totalmente diferentes, mas inseparáveis.

   Além de ser uma oportunidade para conhecer pessoalmente autores da Itália — quase todos participam do Café Literário e de sessões de autógrafos —, a Bienal também é motivo para a publicação de novos títulos do país. A seguir, alguns dos livros que serão lançados e parte da agenda dos italianos no Rio. Mas vale lembrar, antes, que o Istituto Italiano di Cultura do Rio preparou, para este mês, uma série de eventos na cidade. A programação começou ontem, com a inauguração no Museu Nacional de Belas-Artes (MNBA) da exposição “A trama e o ouro — O figurino renascentista”. Também haverá uma mostra de cinema no Odeon, no dia 15, com oito filmes produzidos entre as décadas de 70 e 90, como “A trégua”, de 1997, dirigido por Francesco Rosi a partir do livro de Primo Levi, e “O deserto dos tártaros”, de 1976, dirigido por Valerio Zurlini, uma adaptação da obra homônima de Dino Buzzati, reeditada nesta Bienal.

   O DESERTO DOS TÁRTAROS e UM AMOR (Nova Fronteira), de Dino Buzzati: A Nova Fronteira lança na Bienal o projeto de reedição das obras de Buzzati, com o lançamento desses dois livros. “O deserto dos tártaros” conta a história de um homem que espera a qualquer momento um grande ataque. Em “Um amor”, a solidão também está presente, na vida do Antonio Dorigo, que se apaixona de forma avassaladora por uma jovem prostituta.

   NÃO SE MEXA (Companhia das Letras), de Margaret Mazzantini: O livro da escritora de 42 anos foi premiado no ano passado com o Strega, dos mais prestigiados da Itália. É a história de um pai que conta seu drama — de uma vida cindida entre a mulher e a amante — para a filha inconsciente depois de sofrer um acidente.

   SOBRE A LITERATURA — ENSAIOS (Record), de Umberto Eco: Uma Bienal que tem a Itália como país homenageado não poderia deixar de contar com um novo livro do seu mais famoso intelectual. Neste, reúnem-se artigos esparsos de Eco sobre a arte da palavra.

   OS ITALIANOS NO RIO: São esperados na Bienal Corrado Calabrò, Domenico de Masi, Maurizio Maggiani, Paola Calvetti, Ricardo Viale (médico especializado em psiquiatria e professor de sociologia da ciência, sem editora no Brasil), Romana Petri (romancista de sucesso, sem editora no Brasil), Valerio Evangelisti (especialista em Nostradamus, autor da série “Magus”, da Bertrand), Valerio Manfredi e Willy Pasini. Na sexta-feira, dia 16, Viale e Manfredi se encontram com os visitantes no Café Literário, às 15h30m. O domingo, 18, será o Dia da Itália na Bienal. Às 13h, Willy Pasini, Paola Calvetti e o brasileiro Marco Lucchesi conversam, às 13h, no auditório Jorge Amado, sobre a literatura do país de Dante.

(© O Globo On Line)

Grande construtor de paisagens e personagens

 
Alberto Moravia

Contos dispersos 1928-1951 , de Alberto Moravia. Tradução de Maria Helena Kühner e Giuseppe D'Angelo. Editora Bertrand Brasil, 401 páginas. R$ 48

Elias Fajardo

   Jornalista, romancista e contista, Alberto Moravia (1907-1990) é considerado uma das maiores figuras da literatura italiana do século XX. Seu estilo vigoroso e principalmente suas histórias cheias de personagens apaixonados e apaixonantes fizeram com que o cinema se arriscasse a adaptar, com sucesso, várias de suas obras: “La ciociara”/“Duas mulheres”, em 1960, com Sophia Loren e direção de Vittorio de Sica; “O desprezo”, em 1964, dirigido por Jean-Luc Godard, e “O inconformista”, de 1970, direção de Bernardo Bertolucci.

   Alberto Piancherle (seu verdadeiro nome) nasceu em Roma, onde ambientou uma parte considerável de seus escritos. Aos 9 anos, teve uma doença séria e passou quase dez anos internado em sanatórios. Foi então que começou a escrever e, em 1929, bancou a publicação de seu primeiro romance: “Os indiferentes”, um precursor do romance existencialista.

   Moravia surgiu primeiro como romancista e só depois de consagrado dedicou-se ao conto. Talvez por isto, embora estes seus contos tenham vida própria, muitas vezes parecem esboços de textos de maior fôlego que ele já escreveu ou que ainda pretendia escrever. Tanto no conto como no romance, é um grande construtor de paisagens. Poucos escritores são, como ele, capazes de pintar com palavras uma rua outonal com seus cheiros e nuances, com as cores que se fragmentam no meio do material orgânico espalhado pelo chão.

   Como bom italiano, o escritor se dedica muito ao amor. São amores acomodados pela vivência burguesa, amores saciados através de artimanhas imaginosas ou ainda infelizes como um solo romântico de violino. Alguns exemplos: um rapaz e uma mulher casada brincam de gato e rato um com o outro numa estação de esqui e são o pretexto para o conto “Homem de caráter”. Em “O encontro”, um homem reconhece uma antiga amante no ônibus e começa a segui-la pelas ruas de Roma, perdido entre as sensações que o fato evoca.


Moravia foi censurado e perseguido pelo ‘Duce’

   Admirador das idéias de Marx e Freud, Moravia foi um crítico da burguesia e do capitalismo e um admirador dos camponeses, com os quais viveu nove meses escondido na montanha. Suas críticas ao regime fascista de Benitto Mussolini (“Il Duce”) levaram à censura de suas obras na Itália e alguns dos contos deste volume foram publicados com o pseudônimo “Pseudo”.

   Em 1943, para escapar da perseguição política, refugiou-se com sua esposa, Elza Moranti, na montanha da região da Ciocciara, indo viver num estábulo onde passou frio e fome. A Segunda Guerra rugia nos céus e na terra e o romancista solitário, exilado em seu próprio país, via as bombas explodirem lá embaixo na planície. O rádio era a única forma de tentar saber notícias, que muitas vezes chegavam distorcidas. Suas reflexões políticas, filosóficas e existenciais sobre esse período, algumas amargas e outras líricas, são uma das melhores partes destes “Contos dispersos”, que reúnem mais de cem trabalhos escritos nos seus primeiros 20 anos de literatura. Em suas memórias de guerra, Moravia, sempre na primeira pessoa, constrói em textos curtíssimos tipos memoráveis: o fascista, o ladrão, os soldados alemães que não querem mais lutar, o atacadista roubado, etc.

ELIAS FAJARDO é jornalista e escritor

(© O Globo On Line)

 

Palco do real e do maravilhoso

 
Maurizio Maggiani

Rachel Bertol

   Em 1989, Maurizio Maggiani escreveu à noiva uma enlevada carta de amor que conquistou (quase) todos que a leram. Seus amigos, entusiasmados, inscreveram a missiva em segredo num importante concurso de contos em Roma. Pouco tempo depois, grandes editoras começaram a assediar aquele italiano da Ligúria, de 40 anos, um homem apaixonado e aventureiro: Maggiani tirara o primeiro lugar no concurso.

   — Mas eu não tinha nada a oferecer. Acabei decidindo escrever para corresponder à expectativa dos editores — conta o escritor, convidado da XI Bienal Internacional do Livro, que conversou com O GLOBO por telefone, de sua casa em Gênova.

   Hoje, seis livros depois e uma coleção de prêmios, entre os quais alguns dos mais prestigiados da Itália, Maggiani continua vivendo ansiedades e angústias da conquista amorosa. A carta que encantou o júri letrado de Roma só não conquistou a mulher para a qual foi escrita. Maggiani não se casou com ela.

   — A literatura não ajuda no amor — afirma o italiano, sem lamentações: — O dia em que eu tiver que usar a minha literatura para conquistar uma mulher, então vou preferir não viver mais. Quero conquistar uma donna com a minha mão, com o meu coração...

   O autor, um dos destaques da comitiva italiana nesta Bienal dedicada à Itália, estará lançando no Rio “A rainha sem enfeites” (Berlendis & Vertecchia), publicado em 1998 na Itália, um romance entremeado de sub-histórias, com situações inusitadas, passadas em Gênova e na Polinésia. Na próxima quinta-feira, Maggiani participará do Café Literário, no Riocentro, às 18h.

Idéia de romance sobre a Bósnia

   No momento, confessa estar sem inspiração, por causa de uma nova crise amorosa.

   — Estava esperando me casar. Mas a mulher disse não, desapareceu, e não estou escrevendo nada — diz ele, apesar de tudo com bom humor. — Tenho uma idéia de romance demasiado grande para as minhas possibilidades.

   Grande, mas é disso mesmo que Maggiani gosta:

   — Gosto de criar grandes horizontes, grandes histórias, com muita gente, com muitas paisagens, como as da natureza e as paisagens interiores. Gosto da grande história, do grande romance. Como os de Dickens. Como os escritores latino-americanos. Gosto de Garcia Márquez, Alejo Carpentier também, um pouco, e de Guimarães Rosa e seu “Grande Sertão: Veredas”. Este livro é mais importante para o meu coração que “Cem anos de solidão”.

   O novo livro que planeja teria como protagonista uma jovem na guerra da Bósnia, em meados dos anos 90. Um cenário que Maggiani conheceu bem, pois durante o conflito foi professor voluntário nas cidades bósnias de Tuzla e Mostard. Não teve como ensinar, mas ajudou na reconstrução de um colégio.

   A aventura na Bósnia foi uma das muitas na sua vida. No início dos anos 70, trabalhou como vendedor de gramofones para uma empresa suíça na Argélia.

— Vendi muitos gramofones, mas não me pagaram nada. Pelo menos, conheci o coração do deserto do Saara.

   Maggiani já foi também construtor de bombas hidráulicas, operador cinematográfico, professor de italiano em colégios e numa prisão. Em 1989, quando escreveu a carta que mudaria a sua vida, era fotógrafo. Viajava por toda a Itália fotografando artisticamente maquinário industrial, moderno e antigo. E para saciar a fome de leitura — desde menino é leitor voraz — o escritor não esconde que muitas vezes roubou livros das “livrarias muito ricas da Itália”. Mas mesmo com tantas histórias, não tem vontade de escrever sobre sua vida.

   — Prefiro contar oralmente a minha vida. Não gosto da presença do ego do escritor no romance.

   O livro mais autobiográfico que diz ter escrito foi o primeiro, “Màuri, Màuri”, inspirado em seu filho, Màuri, de 30 anos. No entanto, as vivências impregnam sua literatura, cujos personagens, como Maggiani, são marcados pelo acaso. Em “A rainha sem enfeites”, o encontro com um elefante enfurecido no porto de Gênova muda o rumo de muitas vidas, assim como uma repentina chuva de pombos pode ser determinante para um grande encontro amoroso. É também o acaso, no livro, que leva o padre Giacomo da Itália à Polinésia, o que muda não apenas a vida dele, mas cria tal reviravolta na trama que os críticos italianos chegaram a dizer que Maggiani poderia ter escrito dois livros.

Literatura para recriar o mundo

   — Quando estive na Polinésia me impressionei ao ver que aquela terra, tida como um éden na fantasia dos artistas, era na realidade suja, devastada, empobrecida — conta Maggiani, cujo livro mais premiado é “El coraggio del pettiroso”, de 1995, que conta a história da comunidade de italianos anarquistas em Alexandria (na qual nasceu o poeta Ungaretti, personagem do romance). Um dos capítulos de “El coraggio” se inspira nas recordações do Saara.

   — Não sei se viajar é importante para escrever, mas acho que também é. Se eu não vejo, não guardo, não sinto o mundo, sinto-me velho e estúpido.

   Seu penúltimo livro, “Un contadino in mezzo al mare” (“Um camponês no meio do mar”), baseia-se numa viagem pela costa da sua Ligúria, ilustrada com fotos tiradas por ele.

   — É a história de uma viagem a pé. Há uma trama novelesca, um conto, de certa forma real e maravilhoso.

   Maggiani diz que ficaria muito feliz se toda a sua literatura tivesse esse efeito, de parecer ao mesmo tempo real e maravilhosa (extraordinária, surpreendente, espantosa). Segundo a crítica Luciana Stegagno Picchio, autora da introdução da edição brasileira de “A rainha”, “a imaginação rutilante e imprevisível deste falso naïf transborda como um magma de extraordinária fluidez”. Ao se tornar escritor, depois de adulto e por acaso, Maggiani descobriu uma maneira de recriar tudo o que tinha e não tinha.

   — Com a literatura, descobri a possibilidade de recriar sonhos, recordações e nostalgias, todas as coisas que estão em espírito, mas não são visíveis na realidade. Descobri a possibilidade de ser fabricante de tudo o que sonho e recordo, de tudo o que vi, mas não é meu e pertence ao mundo. Quando escrevo, crio um pequeno mundo completo, um teatro com sua cenografia, atores, música, cheiro, poltronas. Um pequeno teatro, com um universo no palco — conta o escritor que adora encantar e conquistar, mas não se ilude: — Viver é mais importante do que escrever.



Trechos de “A rainha sem enfeites”, de Maurizio Maggiani


“E COMO SE TUDO ISSO NÃO

fosse suficiente, rajadas de vento traziam o cheiro pungente e ácido das pessoas enquanto a trilha fazia-se larga com grande dificuldade entre a multidão (...). Ali, às centenas, aos milhares, entre fogos de entulhos, montes de lixo, as gaitas e os sopros, os prantos, as blasfêmias em todas as línguas da Itália grande e proletária — cada velho e cada velha protegidos pela couraça de seus trapos e de seus filhos e dos filhos de seus filhos —, os emigrantes esperavam o embarque para as Américas, vigiados pelos policiais com fuzil no ombro e uma luminária de acetileno ainda acesa na manhã já clara. A estrada de Camilla atravessava a praça sem pressa, para que a família do Moderador tivesse tempo de se espelhar naquele povo, estampasse bem na memória aquilo que não podia acontecer, o trecho do caminho que precisava ser apagado”.

“ENTÃO, ENTRE AS ÚLTIMAS

penas que caem, vê pela primeira vez Paride. Naquele instante não Paride inteiro, mas apenas a sua mão. A mão de Paride que segura apertado um palpitante pombo prateado. Com um gesto elegante e gentil a mão coloca embaixo do nariz dela um pombo. Assim, para oferecê-lo a ela. Sobre a mão está o rosto de Paride e neste, os olhos que a olham. Eles têm um leve movimento, como um cumprimento. Em seguida, a mão se abre e o pássaro com calma estende as asas e vai embora. Se Sascia não tivesse movido os olhos do pombo para aquele olhar, agora teria aberto a boca para dizer duas palavras que ela guardou quando escutava suas amigas ‘senhoritas’ falando daqueles nojentos que as haviam partido o coração. Mas os olhos daquele homem estão dizendo algo, e ela os ouve. Não por muito tempo, naturalmente. ‘É doido’, pensa, e com um estremecimento vira e vai embora.Ao longo da sua vida, Sascia pensará muitas vezes no domingo dos pombos, e nem sempre com a mesma disposição. Para sempre, enquanto viver, terá convicção absoluta de ter visto Paride realizar naquela manhã o seu gesto mais notável e banal”.

(© O Globo On Line)

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