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Giulio Carlo Argan
Obra fundamental de Giulio Argan, que
sintetiza em três volumes a história artística de seu país, é traduzida
para o português(© estadao.com.br)
CASSIANO ELEK MACHADO
DA REPORTAGEM LOCAL
Tende esperança, ó vós, que
entrais. Você se aproxima de um dos paraísos da história da arte
mundial. O nome desse jardim de delícias é "História da Arte Italiana",
de Giulio Carlo Argan (1909-92).
Obra mais ambiciosa desse que
é considerado um dos grandes historiadores da arte do século 20, o
trabalho de mais de 1.400 páginas, com 600 ilustrações, está chegando na
próxima semana pela primeira vez ao português.
A editora Cosac & Naify lança
na segunda-feira, com um seminário reunindo nomes como o filósofo José
Arthur Giannotti e o crítico Ronaldo Brito, os três volumes dessa
prima-dona da historiografia italiana.
Italiana é modo de dizer. A
"Storia" de Argan começa na pré-história das artes, e até a Idade Média
não seria possível falar em arte italiana sem falar em gótico francês,
arte grega e outras escolas discutidas pelo historiador no primeiro
volume. Mais adiante no trabalho, que tem como ponto final o futurismo,
no início do século 20, também estão em pauta outras tradições que
dialogaram com a arte da pátria de Dante.
Mas mesmo em seu fulcro,
quando fala só da arte italiana, o trabalho vai além, por refletir sobre
uma arte que se buscava (e era) universal. Foi na "Bota", com Giotto
(1267-1337), que a pintura moderna teve, para muitos, o seu Big Bang.
"Depois de Giotto a arte ganha a ambição de ter uma função de
conhecimento autônomo do mundo", diz Lorenzo Mammì, diretor do Centro
Universitário Maria Antonia, da USP.
É justamente o modo como Argan
discute essa invenção da arte como "grande síntese cultural" que o
professor de história acredita que seja uma das grandes contribuições do
livro.
Mammì, que assina o prefácio à
edição brasileira, convive com "A História da Arte Italiana" desde sua
juventude em Roma, cidade da qual Argan chegou a ser prefeito, entre
1976 e 1979.
E foi testemunha (assim como o
editor de arte da Folha, o italiano Massimo Gentile -leia abaixo)
da importância que a obra teve também como "projeto de intervenção
cultural". "Era um livro destinado a um tipo de ensino mais criativo,
problematizado, do secundário à universidade", diz. "Também é um projeto
de resgatar a grande herança italiana, essa função da arte como agente
cultural, de Giotto adiante."
Não apenas as idéias debatidas
por Argan fizeram da "História da Arte Italiana" um clássico. Publicado
em 1968, com o terceiro volume editado dois anos depois, juntamente com
"Arte Moderna" (lançado aqui com sucesso pela Companhia das Letras), o
trabalho pode ser entendido como síntese de todas as questões teóricas
desenvolvidas pelo historiador ao longo de sua trajetória.
Como nota Mammì, no trabalho
ele afirma com mais vigor a idéia de que "a pesquisa em arte só pode ser
a história, e não a ciência, porque a ciência se baseia na organização
de seus objetos em grupos de semelhanças, enquanto em arte vale apenas a
dessemelhança (se dois artefatos são iguais, um necessariamente é cópia,
portanto não arte)".
Argan também deixa clara sua
"defesa" da idéia de uma arte que seja projeto, e não um simples
registro ou testemunha. "Ele busca na arte uma visão projetual da
transformação do mundo. Uma maneira de pensar uma transformação do
mundo", diz Mammì.
HISTÓRIA DA ARTE ITALIANA. Autor: Giulio Carlo
Argan. Tradutor: Vilma de Katinszky. Editora: Cosac & Naify. Quanto: R$
89 (cada volume).
(©
Folha Online)
COMENTÁRIO
Obra é cultuada por gerações

MASSIMO GENTILE
EDITOR DE ARTE
A "Storia dell'Arte Italiana"
foi um livro cultuado por gerações de italianos. A primeira edição foi
publicada em abril de 1968, na véspera da temporada das contestações
estudantis.
O livro era destinado a
preencher uma lacuna no ensino secundário. Mas um dos efeitos do maio de
1968 foi justamente a liberalização do acesso às universidades
humanistas.
A faculdade de arquitetura,
assim como a de letra e filosofia, que incluíam o curso de história da
arte, multiplicaram o número de inscritos, ganharam peso no mundo
acadêmico e viraram o motor cultural da contestação.
Nesse clima, a proposta de
Argan de enfrentar a história da arte em relação às evoluções sociais e
tecnológicas foi um sucesso, tanto que logo o livro veio a ser
considerado "o" manual da formação da crítica de arte na universidade.
Os únicos defeitos da primeira
edição eram o papel e as reproduções, não à altura do texto. Mas é
compreensível: na época era obrigatório manter livre o acesso às
universidades, bem como vender os livros a preços baixos.
Foi com a segunda edição, de
1988, a mesma que está sendo lançada no Brasil, que a "Storia dell'Arte
Italiana" ganhou a dignidade de um clássico.
Com a melhoria das reproduções
e do papel e com um novo e eficiente projeto gráfico, o livro finalmente
assumiu o aspecto de enciclopédia.
Com certeza o texto e as
idéias de Argan merecem esse respeito. Mesmo assim, nas estantes dos
italianos que sonharam em mudar o mundo com a "criatividade", ainda hoje
é nostalgicamente presente a primeira versão do "manual", aquela com um
visual um pouco austero, típico dos livros pensados para a escola.
(©
Folha Online)
Lançamento terá seminário com pesos-pesados
DA REPORTAGEM LOCAL
Os três volumes de "História
da Arte Italiana" vão ser lançados do jeito que Argan gostaria. Com
debates. A Cosac & Naify realiza de segunda a quarta um seminário para
discutir temas prediletos do historiador.
O primeiro dia terá debate de
dois pesos-pesados. De um lado, o filósofo José Arthur Gianotti, da USP.
Do outro, o crítico carioca Ronaldo Britto. Vão discutir "A Arte como
Ciência Européia". Luiz Marques (Unicamp) e Luiz Renato Martins (USP)
falam na terça sobre história da arte italiana. Roberto Conduru (Uerj) e
a crítica Sophia Telles debatem na quarta "História da Arte como
História da Cidade". (CEM)
SEMINÁRIO GIULIO CARLO ARGAN. Onde: Centro
Universitario Maria Antonia (r. Maria Antonia, 294, SP, tel.
0/xx/11/3255-7188). Quanto: grátis. Inscrições: pelo e-mail
argan@cosacnaify.com.br
(©
Folha Online)
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