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H.Hollanda/AE
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Elmo romano: reconstituição teve a ajuda de
laboratório da USP |
Peça de colecionador paulista
tem figuras cinzeladas típicas
das Legiões Nórdica
BIAGGIO TALENTO
SALVADOR –
Ver um objeto
autêntico da época
do Império Romano já é
algo raro. O que dizer da oportunidade,
para um restaurador,
de manipular uma peça pertencente
a um legionário romano
do século 100 a.C.? O
argentino
Domingo Tellechea, que hoje
trabalha na recuperação de
obras de arte da Santa Casa de
Misericórdia de Salvador, teve
o privilégio de restaurar recentemente
um elmo romano de
2.100 anos de idade,
pertencente a
um colecionador
paulista, provavelmente
a única
peça do tipo na
América Latina.
Feita de bronze,
apresentando
ainda traços da
cobertura dourada
que o tempo
apagou, a peça é um raríssimo
capacete de desfile com máscara
frontal (presa com uma dobradiça
na altura da testa), decalcada
diretamente do rosto
do guerreiro ou de um companheiro
morto.
O que torna o capacete ainda
mais singular é o conjunto de figuras
cinzeladas na parte superior
e posterior. Dois deuses alados
seguram rédeas presas a renas,
numa alegoria à vitória, reforçada
pelo desenho de uma
grinalda entrelaçada com fitas.
“A ausência de figuras zoomórficas
clássicas como leões, panteras
e, principalmente, javalis
e águias, animais que predominam
em elmos imperiais, situa
a peça com precisão: procede
das Legiões Nórdicas da Europa”,
explicou Tellechea.
Nessa época os exércitos romanos
combatiam as numerosas
tribos bárbaras germânicas
nas proximidades do Rio Reno,
nas cercanias de um povoado
chamado Oppidum Ubiorum.
Muito tempo depois, Roma instalou
nessa região a Colônia de
Agripina (atual cidade alemã
de Colônia), fundada por Agripina,
a Menor, irmã do imperador
Calígula e mãe de Nero.
O restaurador explicou que,
por volta de 100 a.C., o povoado
era usado como abrigo de heróis
legionários que haviam recebido
baixa.
O elmo provavelmente pertenceu a um desses heróis, que o utilizou em
desfiles pomposos. Elmos de bronze usados em paradas são considerados
raros, ao contrário dos capacetes de ferro, de combate, recolhidos em
abundância nas ruínas de Pompéia.
Avaliação – Publicações
alemães, inglesas e americanas especializadas em arqueologia que citam a
o elmo restaurado por Tellechea assinalam que a cena cinzelada sugere
uma referência aos povos dominados pelo Império Romano na região, como
os celtas e tribos germânicas.
Nesses catálogos, o valor da peça
é avaliado entre US$ 120 mil aUS$ 140 mil. Seu comprador não revelou
quanto pagou por ela e só permitiu ao Estado fazer a reportagem se sua
identidade fosse omitida. Tellechea tem larga experiência no ofício. Já
restaurou obras de pintores do quilate de Rubens, Picasso e Modigliani,
além de painéis do português Antonio Ribeiro Simões, um dos primeiros
pintores barrocos do Brasil.
Ele e sua equipe fizeram um trabalho minucioso de consolidação das
lâminas de bronze – o elmo estava partido em quatro pedaços –,
fragilizadas pelas centenas de anos que permaneceram embaixo da terra,
expostas a reações químicas e bacteriológicas. Inicialmente Tellechea
pediu ao Laboratório de Espectroscopia
Molecular do Instituto Químico da Universidade de São Paulo, um velho
parceiro dos restauradores no País, para analisar o elmo, determinando
fielmente os metais usados na sua fabricação, para que na restauração
não fosse usada nenhuma substância que pudesse danificá-lo. Depois as
lâminas foram consolidadas com uma resina
sintética transparente derivada do náilon, aplicada na parte interior. O
próprio Tellechea reproduziu à mão
livre todos os desenhos cinzelados na peça. A
preciosidade foi montada em uma calota acrílica e enviada para o
dono em São Paulo, onde permanecerá inédita.
(©
O Estado de S.
Paulo)
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