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19/11/03
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Nilton Silva/Divulgação
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O italiano Mauro
Maldonato, professor da
universidade de Basilicata. |
FÁBIO VICTOR
DA REPORTAGEM LOCAL
No século que começa sob o
signo do terror, a análise da intolerância ganha novo fôlego, e algumas
vozes passam a ser ouvidas com mais atenção. Como a do psiquiatra e
filósofo italiano Mauro Maldonato, 43.
Professor de ciência do
comportamento na Universidade da Basilicata, autor de 18 livros (apenas
um publicado no Brasil, "A Subversão do Ser", ed. Fundação Peirópolis,
2000) e colaborador do jornal "La Repubblica", Maldonato é um dos
destaques do seminário "Cultura e (In)tolerância", que o Sesc-SP promove
até a quinta.
Em entrevista à Folha, ele
defende que a intolerância é um demônio adormecido em nós e diz que as
metrópoles estimulam o conflito entre diferentes.
Folha - O terrorismo é uma forma de intolerância ou uma reação
à intolerância?
Mauro Maldonato - É uma forma extrema de intolerância, porque
considera o "inimigo" em sentido total, existencial. Mas também é uma
reação visceral e primordial ao imperialismo geopolítico -não o do
lugar-comum, que o considera expressão da ampliação dos mercados, mas,
ao contrário, a dura lei do Estado moderno no grau máximo de sua
expansão e de sua crise.
Folha - Até onde pode levar a política antiterror dos EUA?
Maldonato - A política dos EUA é péssima. Em primeiro lugar, por
ser completamente incapaz de defender a vida e os bens dos cidadãos
americanos. Em segundo lugar, por ser uma política que dilata a
intervenção militar baseando-se numa doutrina aberrante: a da guerra
preventiva, sustentada pelo grupo dos "neoconservatives" que trai e
inverte a grande tradição originária dos EUA, das liberdades
individuais.
Folha - Como o sr. situa a questão israelo-palestina num "mapa
da intolerância mundial"?
Maldonato - Pergunto-me se existe um mapa da intolerância
mundial, como se fosse um risco epidemiológico contra o qual
imunizar-se. Receio que a intolerância, a absolutização do inimigo,
esteja dentro de nós, um verdadeiro demônio. A questão israelo-palestina
é em boa parte um conflito geopolítico específico entre duas nações e
comunidades políticas, mas que implica uma tremenda oposição de valores,
começando pela dignidade da pessoa e do caráter sagrado da vida.
Folha - Uma das características das metrópoles é a
supervalorização da individualidade. Como preservá-la sem agredir a
sociabilidade, a convivência pacífica?
Maldonato - A individualidade é oprimida pela metrópole das
multidões solitárias. Ela pode viver em paz, no entanto, nas pequenas e
médias cidades, onde os homens mantêm relações pessoais e escapam do
anonimato e da lei do número.
Folha - O sr. então defende que a organização das grandes
cidades estimula a intolerância? Não há espaço nas metrópole para o
exercício das liberdades individuais?
Maldonato - Sim, penso que a atual dimensão metropolitana
estimula a intolerância. É ainda o conhecido problema da loucura
solitária. Todavia, na metrópole, são possíveis e existem espaços
limitados de pequenas comunidades com objetivo homogêneo, alguma vida de
bairro, algumas associações livres, tradições urbanas anteriores à
dimensão metropolitana. Em certo sentido, pequenas cidades na
megalópole.
Folha - O chamado racismo cordial brasileiro é,
simultaneamente, uma manifestação de tolerância e de subdesenvolvimento
cultural. Como dosar esse paradoxo?
Maldonato - Parece-me um paradoxo singular e interessante. Quero
compreendê-lo falando com meus muitos amigos brasileiros. Recorda-me a
ambivalência de Nápoles, minha cidade.
(©
O Folha de S.
Paulo)
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