'O Evangelho Segundo São Mateus' mostra que a
religião católica nasceu da contestação
Uma das cenas marcantes de O Evangelho Segundo São Mateus (1964)
mostra um Cristo implacável dizendo aos apóstolos que se enganam se
pensam que ele viera para trazer a paz; viera com a espada na mão. O
texto está lá, no Evangelho bíblico, assim como tantas outras
passagens e diálogos desse filme extraordinário, feito por um marxista
cristão - explosiva mistura que só faz sentido em se tratando de Pier
Paolo Pasolini.
De certo modo, a fidelidade ao texto, com a inclusão dos milagres
e tudo o mais, foi a grande surpresa do filme. Do contestador,
esperava-se uma visão mais diretamente "laica" do Cristo. Isto é, mais
secular, despojada do aspecto religioso e místico. Nada disso: as
etapas da Paixão são cumpridas por Pasolini de maneira que poderíamos
chamar de religiosa, não fosse o abuso do termo.
A sua leitura da vida de Jesus, através do Evangelho de Mateus,
traz o retrato de pureza de uma religião popular em estado nascente,
ainda sem ritos definidos, um movimento que nasce no seio do povo
miúdo reunido em torno de um Messias. Há todo esse aspecto comovente
no Evangelho segundo Pasolini. Tanto assim que, em 1995, ano do
centenário do cinema, o filme foi escolhido pelo Vaticano como um dos
melhores de todos os tempos. Quando foi lançado, em 1964, o Evangelho
recebeu o Gran Prix do Ocic (Office Catholique International du
Cinéma) - o organismo internacional do cinema católico.
Quer dizer, a ortodoxia está lá, preservada, como atesta o
Vaticano. Mas há também essa dureza, esse rigor do personagem de Jesus
(vivido pelo espanhol Enrique Irazoque), seu olhar guerrilheiro,
radical. E aí sim, se não faltam os aspectos místicos ao filme, a
verdade é que, como assinalou na ocasião o escritor Alberto Moravia,
Pasolini conservou tenazmente a fidelidade a si mesmo quando o pensou
e realizou.
Essa fidelidade significa dar ao Cristo essa aura de herói
intelectualmente solitário, segundo observação do crítico Lino
Michiccé. Jesus é uma figura radical em meio à gente humilde que vive
mal e mal em meio da ocupação romana da Palestina. Vale a pena citar
esse que é um dos grandes críticos de cinema italiano: "(Pasolini) põe
em cena um profeta desarmado, que prega a destruição do presente
através da utopia, nega a sua lógica mediante os milagres, trinca a
ordem por meio do 'escândalo', contesta sua ética desvelando a sua
hipocrisia frente à multidão dos deserdados da História, os quais têm
de seu, para perder, apenas os grilhões de um presente vivido como
degradação, de uma lógica funcionando como constrição, de uma ordem
vista como repressão, de uma moral que é apenas submissão." (Cinema
Italiano: gli Anni '60 e Oltre, Marsilio Editori, 2002).
Portanto, nessa Palestina recriada em locações na Basilicata, no
sul pobre da Itália, temos o ambiente típico do Pasolini de filmes
anteriores como Accatone e Mamma Roma: os deserdados, o lúmpen,
vivendo sob um regime de opressão e exploração. Pode ser a política
exterior do Império Romano na época do Cristo; pode ser, na leitura
pasoliniana, a Democracia Cristã italiana na época em que o filme foi
lançado - 1964, por acaso ano da morte de Palmiro Togliatti, líder do
Partido Comunista Italiano. Pode ser a época do consumismo nascente
que, sempre segundo o cineasta, destruiu o que ainda restava da
cultura popular na Itália - e no mundo.
A todo momento, com sua feição documental, O Evangelho
Segundo São Mateus nos relembra que a religião católica, durante tanto
tempo confundida com o conformismo social, nasceu no meio da
contestação e da desordem.