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Um lugar pra chamar de seu

11/04/2009

Vista aérea da Comune di Cittadella, no Vêneto
 

Dois estudos investigam os sentidos social, psicológico e cultural das cidades no Renascimento e no Século 21

REGINA MEYER
ESPECIAL PARA A FOLHA

As cidades estão na ordem do dia, sobretudo as grandes cidades. Qual será a explicação, ou melhor, as explicações para esse protagonismo?

Uma hipótese, entre outras, é que as cidades possuem atributos concretos por meio dos quais é possível avaliar as fortes e abrangentes transformações que estão em andamento em todas as esferas da organização da sociedade.

É no interior das cidades que estão se reorganizando as atividades produtivas, cujas dimensões espaciais, sociais e culturais ganham forma.

Seu caráter intrinsecamente ambivalente e material é, justamente, o tema de dois livros que se situam no interior de um grande arco de tempo que tem o ponto de partida no século 15 e o de chegada na primeira década do século 21.

Estão aí presentes cinco séculos decisivos para a história da cidade.

Nos dois extremos desse percurso situam-se "A Cidade do Primeiro Renascimento", de Donatella Calabi, arquiteta e professora no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, e "Confiança e Medo na Cidade", do sociólogo Zigmunt Bauman.

Professor nas universidades de Leeds e Varsóvia, é um dos mais profícuos autores da atualidade, com 17 livros já publicados no Brasil.

Pontos distintos

Embora muito diferentes nas suas abordagens, ambos se situam em pontos distintos de um processo marcado por mudanças no quadro físico que as cidades experimentaram.

Numa ponta situa-se o período identificado como primeiro Renascimento, patrocinado por príncipes que entenderam e exerceram com energia o poder a partir da edificação de espaços urbanos "mais organizados" no século 15.

Na outra, os espaços da cidade contemporânea, que Bauman aponta como pós-moderna, regidos por príncipes multinacionais e globalizados cujas manifestações iniciais ocorreram no final do século 20.

Enquanto Calabi utiliza instrumentos de análise que destacam a articulação entre os aspectos físicos e ideológicos das operações urbanas praticadas no século 15 europeu, Bauman aponta para a experiência desprovida de urbanidade que caracteriza a vida na cidade contemporânea.

Entretanto, é indiscutível que ambos analisam de forma distinta um mesmo tema: as relações entre cidade e a sociedade. Nos dois casos fica evidente o acerto da análise de Manuel Castells [sociólogo espanhol] quando diz que a cidade não pode nunca ser vista como mero reflexo da sociedade, mas o seu principal instrumento de realização.

Percorrendo os dois livros em sentido cronológico inverso, isto é, do texto de Bauman para o de Calabi, somos obrigados a constatar o malogro no modo de organização e de vida nas cidades.

Os temas atuais abordados por Bauman -o medo, a dificuldade de convívio entre indivíduos diferentes, a mixofobia, entre outros- revelam o considerável fracasso do "modus convivendi" nas cidades contemporâneas. Bauman apoia seus argumentos em importantes contribuições teóricas que procuram apreender a natureza da cidade contemporânea.

Ele apenas aflora conceitos centrais da vida urbana contemporânea, elaborados por autores do porte de Manuel Castells, Richard Sennett, Robert Castel, Peter Hall e muitos outros, produzindo um inteligente texto ensaístico de divulgação.

Calabi segue um modelo distinto para apresentar os elementos que compõem a cidade e o ideário urbano e político utilizado no século 15.

Ela descreve o remanejamento de velhas estruturas medievais e as adaptações que inauguram as manifestações da cidade moderna. Deixa bem claro, embora enfatize a dimensão urbana, o quanto naquele momento a cidade foi "uma razão de Estado", como aponta Walter Benjamin.

Comprometida com uma abordagem acadêmica, Calabi explora os atributos físicos, espaciais, simbólicos e teóricos que presidiram a construção da cidade da primeira fase da Renascença.

Técnicas de construção

Acompanhamos no seu texto a história dos modos de utilização das técnicas construtivas em favor da vida urbana.

No interior do perímetro das muralhas medievais, cuja função se extinguiu com a invenção da pólvora, ganha força um conjunto de transformações físicas que modificavam profundamente a organização urbana.

Retificação e alargamento das tortuosas ruas medievais, abertura de praças e edificação de pontes abrem espaço para a vida coletiva, reorganizam o tecido urbano medieval, buscando torná-lo mais representativo da organização pós-medieval. Isso implicou a criação de uma monumentalidade que colocava toda a cidade em evidência, deixando claro que ela não é apenas a imagem da vontade do príncipe, mas um poderoso instrumento de seu exercício de poder.

Ambivalência

Apesar dos poucos pontos em comum no que se refere ao método de abordagem, nos dois textos há questões que os conduzem a um mesmo objetivo: entender o sentido da urbanidade, concebida como experiência social, psicológica e cultural que nasce dentro do espaço concreto das cidades.

O caráter ambivalente da cidade grafado no título do livro de Bauman nasce justamente da necessidade de colocar a grande cidade no centro do debate sobre o mundo contemporâneo, admitindo todos os seus problemas.

Afinal, a confiança nelas, como defende Bauman, nasce justamente da possibilidade de reestruturá-las como ocorreu no século 15, quando se organizaram as primeiras manifestações da cidade moderna, almejando formas de convívio mais harmônicas.

REGINA PROSPERI MEYER é professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

A CIDADE DO PRIMEIRO RENASCIMENTO
Autora: Donatella Calabi (foto)
Tradução: Marisa Barda
Editora: Perspectiva (tel. 0/xx/11/3885-8388)
Quanto: R$ 46 (208 págs.)

CONFIANÇA E MEDO NA CIDADE
Autor: Zygmunt Bauman
Tradução: Eliana Aguiar
Editora: Jorge Zahar (tel.0/xx/21/2108-0808)
Quanto: R$ 19,90 (96 págs.)

(© Folha de S. Paulo) 

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